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TRIBUTO A CECÍLIA MEIRELES

"A vida só é possível reinventada."

Serena Poetica

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Sou uma pessoa simples, sensivel, sincera, sonhadora e amiga.
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A VIDA SÓ É POSSÍVEL REINVENTADA

 

 

 
 
 
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Cantiguinha

 
 
 
CANTIGUINHA
 
 
Brota esta lágrima e cai.
Vem de mim, mas não é minha.
Percebe-se que caminha,
sem que se saiba aonde vai.
 
 
Parece angústia espremida
de meu negro coração
- pelos meus olhos fugida
e quebrada em minha mão.
 
 
Mas é rio, mais profundo,
sem nascimento e sem fim,
que, atravessando este mundo,
passou por dentro de mim.
 
 
CECÍLIA MEIRELES
(do Livro Vaga Música, 1942)
 
 
 

Vigília das Mães

 
 
 
 
 
Vigília das Mães
 
 
Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida,
pelas águas salgadas de muito longe,
pelas florestas que escondem os dias,
pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro
de seus próprios silêncios.
 
 
Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram.
Este vento que passa pode dar-lhes a morte.
A vaga pode levá-los para o reino do oceano.
Podem estar caindo em pedaços, como estrelas.
Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima.
 
 
Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma.
Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir.
Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade,
não querem prisão, atraso, adeuses:
deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos.
 
 
Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos,
querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam.
Não sabemos quando morrem, quando riem,
são pássaros sem residência nem família
à superfície da vida.
 
 
Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,
esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos.
Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos.
Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,
mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,
seu único presente, abundante e sem fim.
 
 
Cecília Meireles
(Poema escrito em 1960)
 
 
 
 
 

CANÇÃO QUASE INQUIETA

 
 
 
 
CANÇÃO QUASE INQUIETA
 
 
 
 
De um lado, a eterna estrela,
e do outro a vaga incerta,
 
 
meu pé dançando pela
extremidade da espuma,
e meu cabelo por uma
planície de luz deserta.
 
 
Sempre assim:
de um lado, estandartes do vento...
- do outro, sepulcros fechados.
E eu me partindo, dentro de mim,
para estar no mesmo momento
de ambos os lados.
 
 
Se existe a tua Figura,
se és o Sentido do Mundo,
deixo-me, fujo por ti,
nunca mais quero ser minha!
 
 
(Mas, neste espelho, no fundo
desta fria luz marinha,
como dois baços peixes,
nadam meus olhos à minha procura...
Ando contigo - e sozinha,
Vivo longe - e acham-me aqui...)
 
 
 
Fazedor da minha vida,
não me deixes!
Entende a minha canção!
Tem pena do meu murmúrio,
reúne-me em tua mão!
 
 
Que eu sou gota de mercúrio,
dividida,
desmanchada pelo chão...
 
 
 
CECÍLIA MEIRELES
(do livro Vaga Música, 1942)
 
 
 
 
 
 

Idílio

 
 
 
 
 
 
 
 
IDÍLIO
 
 
Como eu preciso de campo,
de folhas, brisas, vertentes,
encosto-me a ti, que és árvore,
de onde vão caindo flores
sobre os meus olhos dormentes.
 
 
Encosto-me a ti, que és margem
de uma areia de silêncios
que acompanha pelo tempo
verdes rios transparentes;
tua sombra, nos meus braços,
tua frescura, em meus dentes.
 
 
Nasce a lua nos meus olhos,
passa pela minha vida...
- e, tudo que era, resvala
para calmos ocidentes.
Caminhos de ar vão levando
pura e nua essa que andava
com as roupas mais diferentes.
 
 
Olham pássaros, das nuvens,
entre a luz dos mundos firmes
e a das estrelas cadentes.
E o orvalho da sua música
vai recobrindo o meu rosto
com um tremor que eu conhecia
nos meus olhos já levados,
idos, perdidos, ausentes...
 
 
(Leve máscara de pérolas
na minha face não sentes?)
 
 
Cecília Meireles
(do livro Vaga Música, 1942)
 
 
 

DEPOIS DO CARNAVAL

Recados para Orkut

Recados para Orkut 

Depois do Carnaval
 
 
Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.
 
          À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação  de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda sua força, por um ano inteiro contida.
 
          Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e  finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade?
 
          Por outro lado, neste chamado país subdesenvolvido, quem poderia imaginar que há tantos reis e imperadores, princesas das Mil e Uma Noites, soberanos fanáticos, banhados em  esplendores que, se não são propriamente das minas de Golconda, resultam, afinal, mais caros; pois se as gemas verdadeiras têm valor por toda a vida, estas, de preço não desprezível, se destinam a durar somente algumas horas.
 
          Neste país tão avançado e liberal - segundo dizem - há milhares de corações imperiais, milhares de sonhos profundamente comprimidos mas que explodem, no Carnaval, com suas anquinhas e casacas, cartolas e coroas, mantos roçagantes (espanejemos o adjetivo), cetros, luvas e outros acessórios.
 
          Aliás, em matéria de reinados, vamos do Rei do Chumbo ao da Voz, passando  pelo dos cabritos e dos parafusos; como se pode ver no catálogo telefônico. Temos impérios vários, príncipes, imperatrizes, princesas, em etiquetas de roupa e em rótulos de bebidas. É o nosso sonho de grandeza, a nossa compensação, a valorização que damos aos nossos próprios méritos...
 
          Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas...?
 
          "Ved de quán poco valor
          Son las cosas tras que andamos
          Y corremos..."
 
dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval...
 
 
Cecília Meireles
(do livro Quatro Vozes)
 
 
 
 
 
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